Embaixo do chão, os fungos ficam escondidos, contando segredos e criando laços com as raízes das plantas. Os dois mantêm uma relação de milhões de anos, na qual as plantas fornecem aos fungos açúcares gerados pela fotossíntese e os fungos estendem suas extensas redes de filamentos microscópicos — conhecidos pela biologia como hifas, para muito além do alcance das raízes das plantas, fazendo com que elas consigam absorver uma quantidade drasticamente maior de água e nutrientes minerais.
Quando vários desses pequenos fios (hifas) se juntam, formando um emaranhado, cria-se o micélio, que é a estrutura principal e invisível do fungo que age como uma espécie de transporte de informações, como a internet.
O Reino dos Fungos ou Reino Fungi é um dos grandes grupos de seres vivos da natureza e, embora essa categoria seja mais conhecida pelos cogumelos, o cogumelo que vemos na superfície é apenas uma partezinha (a reprodutiva) desse grande conjunto de hifas, que ficam cobertas pelo solo.
Os micélios constituem mais de 100 quatrilhões de quilômetros quadrados, formando uma infraestrutura natural gigantesca e invisível. Por meio deles, as plantas compartilham recursos, respondem a mudanças no ambiente e se fortalecem mutuamente. O que a princípio parece um conjunto de organismos isolados é, na realidade, uma grande rede de cooperação.
Foi a partir desse emaranhado que traçamos um paralelo entre a rede de cuidado da cidade e a rede invisível dos fungos. Assim como na natureza a vida não acontece de forma isolada, na rede de cuidado, isto é, saúde, assistência social, educação, cultura, lazer, trabalho, habitação e justiça, também é preciso fazer conexões, trocas e estabelecer relações. A vida do território depende do contato entre as pessoas para as redes se tecerem.
Percebemos uma fragmentação nas informações sobre os serviços e, com isso, uma dificuldade em encontrá-las de forma organizada e integrada, e imaginamos que talvez outras pessoas pudessem sentir o mesmo. Foi dessa compreensão que nasceu a Teia SP: um guia colaborativo que reúne dispositivos, equipamentos e iniciativas da cidade de São Paulo.
Os dispositivos do site incluem várias áreas e foram divididos em categorias pensadas para facilitar as buscas, como: Sistema Único de Saúde (SUS), Saúde Mental, Sistema Único da Assistência Social (SUAS), Educação, Moradia, Trabalho, Benefícios e Programas, Lazer e Cultura, Justiça, Direitos Humanos e Outros. Além disso, colocamos os públicos-alvo, por exemplo: população LGBTQIAPN+, pessoas em situação de calçada, pessoas com deficiência etc.
Um dos princípios fundamentais do SUS é a integralidade, a qual, por sua vez, considera o sujeito como um todo, atendendo a todas as suas necessidades. "Para que isso seja possível, é importante a integração de ações, incluindo a promoção da saúde, a prevenção de doenças, o tratamento e a reabilitação. Juntamente, o princípio de integralidade pressupõe a articulação da saúde com outras políticas públicas, para assegurar uma atuação intersetorial entre as diferentes áreas que tenham repercussão na saúde e qualidade de vida dos indivíduos" (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2026).
Embora essa analogia seja bonita, sabemos que a construção da rede está longe de ser simples. Pelo contrário, trata-se de um processo profundamente complexo, atravessado simultaneamente por tensões, desafios, encontros e trocas. Em um contexto marcado pelo sucateamento das políticas públicas e dos serviços, torna-se cada vez mais necessário fortalecer, sustentar e articular essa rede, para que o cuidado possa continuar acontecendo de forma viva e efetiva.
Assim como os micélios não são facilmente percebidos, grande parte do trabalho em rede também acontece de maneira silenciosa, apesar de muito trabalhosa, nos espaços entre uma instituição e outra, nos matriciamentos, nas trocas entre trabalhadores. Só assim se faz o cuidado. É nessa trama de relações que o cuidado circula. E talvez seja justamente por isso que uma rede de cuidado, assim como a rede dos fungos, não seja apenas um conjunto de pontos conectados, mas uma estrutura viva, em movimento, e claro, no coletivo, já que para tecer a teia são precisos muitos fios.
Elencamos a luta antimanicomial como exemplo para ilustrar como a rede exige a presença de um coletivo: usuário, família, trabalhador da saúde, espaços de convivência, cultura, território, lazer, trabalho. A luta antimanicomial faz parte de um cuidado intersetorial, territorial e que acontece justamente por estar em rede. Nosso projeto foi fundamentado em uma postura ético-política pautada no cuidado em liberdade como eixo central, alinhada aos princípios da luta antimanicomial e da redução de danos e riscos, dessa maneira, todos os dispositivos presentes neste site seguem essa lógica.
Nosso projeto não tem como objetivo solucionar os desafios envolvidos na articulação dessa teia de cuidado. A proposta é contribuir para a reunião e organização de informações que possam fortalecer esse processo, facilitando o tecer da rede por meio do conhecimento sobre os serviços existentes e da compreensão dos espaços que podemos ocupar, construir e compartilhar.
O site funciona por meio de três seções principais, descritas a seguir:
• Buscar: onde é possível consultar as informações de cada dispositivo cadastrado, horários de funcionamento, contatos oficiais (sites e redes sociais) e filtrar por público atendido, frente de atuação ou utilizar a barra de pesquisa com palavras-chave.
• Mapa: onde é possível visualizar a distribuição das unidades, referentes aos dispositivos cadastrados, no território de São Paulo.
• Sugestão: onde é possível cadastrar novos dispositivos que ainda não estão no guia por meio de um formulário simples.
A ideia do site é que todes possam contribuir acrescentando dispositivos que ainda não estejam cadastrados, ajudando a construir um mapa cada vez mais completo, atualizado e útil para todes. Tanto a rede de cuidado como a rede de vida dos fungos necessitam desses fios, emaranhados e teias para gerar e manter a vida, ou melhor, para promover e proteger a saúde através de vínculos e relações.